Alerta de Incêndio

Bastidores2 de novembro de 2026 · 7 min de leitura

Por que o site do Alerta vai mudar, e como vamos saber se ficou melhor

Olhamos o próprio site como quem chega pela primeira vez, abrimos quase 60 referências e saímos com um plano: o mapa de uma fazenda no lugar dos ícones, número com data e fonte, e um teste A/B para decidir.

O Alerta de Incêndio vigia a terra de quem trabalha no campo pelo satélite e avisa no WhatsApp quando aparece fogo por perto. O site que explica isso, porém, podia ser o site de qualquer outro software. Abrimos a página inicial com o olho de quem nunca ouviu falar da gente e a conclusão foi direta: não aparece uma cerca, um mapa, um foco de calor. Aparecem ícones, caixas e frases de efeito.

Resumo

O site seguia a receita padrão de página de software, montada com o mesmo bloco repetido e sem nenhuma imagem do mundo que o produto vigia. Um dos números da página inicial ainda estava errado. Fizemos uma auditoria das 8 páginas e comparamos com cerca de 60 sites de alerta, clima, agro e jornalismo de dados. A nova página inicial mostra o mapa de uma fazenda, o foco como ele é visto do satélite e o aviso que ele gera. Metade das visitas vai ver a versão nova; os números dizem qual fica.

O que estava errado

A página seguia, seção por seção, a receita que hoje sai pronta de qualquer gerador de site: um selo acima do título, metade do título colorida, uma faixa de três números, três passos com ícone, uma grade de vantagens, três planos com o do meio destacado, perguntas frequentes e uma faixa escura no fim pedindo cadastro. Tudo feito com a mesma caixa de canto arredondado, repetida 20 vezes. No celular, isso vira uma pilha de 7,5 mil pixels de caixas iguais.

Topo da página inicial antiga do Alerta de Incêndio no computador: título em duas cores, celular com mensagem ilustrativa e uma faixa de três números, o terceiro igual a zero
A página inicial até outubro de 2026. Repare no terceiro número: 0 municípios com fogo, ao lado de 239 mil focos.

O pior não era a aparência. A faixa de números dizia "239.395 focos de calor no Brasil em 30 dias" e "29.924 focos por dia, em média". A conta não fecha: os dados cobriam só 8 dias, não 30. O terceiro número, municípios com fogo, saía zerado porque o resumo que recebemos não traz município. Para um serviço cuja razão de existir é confiar no dado, um número incoerente na primeira tela pesa mais que qualquer escolha de cor. Corrigimos: o número agora diz o período real e que soma todos os satélites, e no lugar do zero entrou o dia com mais focos.

Como olhamos

Dividimos o trabalho em quatro frentes, cada uma com as páginas abertas e conferidas no dia:

  • Auditoria do nosso site: 8 páginas no celular e no computador, 33 problemas anotados com a linha de código de onde vêm, e uma lista do que vale manter.
  • Produtos de alerta de fogo, clima e agro: NASA FIRMS, INPE, Watch Duty, Windy, MapBiomas, meteoblue e outros 9.
  • Sites que parecem ter autor: jornalismo de dados (Our World in Data, Nexo), serviços públicos de alerta (agência meteorológica do Japão, serviço geológico dos EUA) e o que designers vêm escrevendo sobre a "cara de IA" dos sites.
  • O vocabulário visual do campo brasileiro: placas de rodovia, cartilhas de prevenção do ICMBio e das federações, o formato do alerta da Defesa Civil, cartas topográficas do IBGE, fontes brasileiras com licença aberta e onde conseguir foto legalmente.
sites de referência abertos e conferidos
~60
sites de referência abertos e conferidos
problemas anotados no nosso site
33
problemas anotados no nosso site
dias de dado no número que dizia "30 dias"
8 de 30
dias de dado no número que dizia "30 dias"
mapas ou fotos nas páginas de venda
0
mapas ou fotos nas páginas de venda

O que os bons sites fazem diferente

Entre os sites que passam confiança, cinco coisas se repetem. Nenhuma delas é enfeite.

  • Mostram o dado de verdade logo de cara: o mapa, a imagem do satélite, a tabela. Ninguém usa um ícone de satélite para dizer "satélite".
  • Dizem a fonte, a hora e os limites. O mapa de focos da NASA abre avisando que nuvem esconde fogo e que foco não é certeza de incêndio. Falar da margem de erro faz acreditar no resto.
  • Usam duas letras com funções fixas: uma forte para a frase, uma de máquina de escrever para hora, distância e coordenada, como num instrumento.
  • Quando têm foto, é do lugar e do trabalho de verdade, não de modelo posando.
  • Tratam o alerta como objeto de trabalho: o quê, onde, a que distância, quando, de qual satélite e o que fazer agora.

A direção: um instrumento de campo

A ideia é que o site pareça o cruzamento de uma carta topográfica do IBGE com a caderneta do pluviômetro, não uma campanha. No lugar do celular com mensagem de exemplo, a página inicial passa a mostrar o mapa de uma fazenda: a divisa do CAR tracejada como cerca de carta, anéis de 2, 5 e 10 km e o foco de calor desenhado como um quadrado.

Topo da página inicial nova: título em letra de placa, mapa de uma fazenda fictícia com a divisa tracejada, anéis de distância e um foco desenhado como quadrado, e ao lado o aviso de WhatsApp com distância, hora e satélite
A página inicial nova. A fazenda e o foco são fictícios; o aviso traz os mesmos campos da mensagem de verdade.

O quadrado tem motivo. O satélite não vê um ponto: ele vê um pixel, de cerca de 375 metros de lado nos sensores mais finos e de 1 km nos mais antigos. Dizer "o fogo está em algum lugar deste quadrado" é mais honesto que um alfinete vermelho, e é exatamente o que a gente quer que o produtor entenda antes de sair de casa.

  • Uma escala de distância fixa, usada igual no aviso, no mapa e nos planos: a 2 km é para agir, a 10 km é para ficar atento.
  • Números sempre com data e fonte. Quando não há foco perto, o site diz isso também: a maioria dos dias é assim, e é nesses dias que se prova que o vizinho está acordado.
  • Uma lista dos focos mais recentes no país, com distância e direção até a cidade mais próxima, atualizada a cada poucos minutos.
  • Letra de placa de rodovia: a Overpass vem do mesmo alfabeto de estrada que serve de base às placas da BR, e tem uma versão de máquina de escrever para horários e distâncias.
  • Laranja só onde pede ação. O resto do site fica em palha e verde-cerrado.

O que fica

Nem tudo era problema. O estudo com 11 anos de focos do INPE, principalmente o caso de São Paulo em que dá para posicionar uma propriedade e ver com quanta antecedência o aviso teria chegado, é a melhor prova do que o Alerta faz e vai para a página inicial. Ficam também o verificador de risco por cidade, o texto que já soa do campo e a seção que explica o que o satélite não vê.

Como vamos decidir: metade vê a página nova

Gosto não decide. Metade das pessoas que chegam ao site vai ver a página inicial nova, metade a atual, sorteadas na hora e sempre a mesma versão para a mesma pessoa. Contamos quantas, em cada versão, clicam para testar, consultam o risco da cidade, criam conta e assinam.

Fazemos isso sem rastreador de terceiros e sem anúncio: dois cookies nossos, um identificador anônimo que não diz quem você é e a versão que você está vendo. Está na página de privacidade.

Uma conta honesta: com 2 em cada 100 visitantes criando conta, para ter certeza de que a página nova converte metade a mais são precisas umas 3.800 visitas em cada versão. Para diferenças menores, dezenas de milhares. Se a versão nova não for melhor, a atual fica, já corrigida.

Em que ordem

  • Corrigir o que estava errado nos números e no texto. Feito.
  • Medir e sortear as versões. Feito.
  • A página inicial nova, como segunda versão. Em teste.
  • As outras páginas: o risco de hoje vira um mapa com a tabela de focos por município das últimas 48 horas, e Como funciona ganha as abas legenda, método e limites.
  • Fotos de verdade: aceiro, pipa e brigada, com licença ou feitas por nós. E uma seção dizendo quem está por trás do Alerta.

Referências citadas

  1. NASA FIRMS, mapa de focos ativos: https://firms.modaps.eosdis.nasa.gov/map/
  2. INPE, Programa Queimadas, situação atual: https://data.inpe.br/queimadas/situacao_atual/
  3. Watch Duty: https://www.watchduty.org
  4. Our World in Data, Wildfires: https://ourworldindata.org/wildfires
  5. Nexo, gráficos: https://www.nexojornal.com.br/grafico
  6. Agência Meteorológica do Japão, mapa de avisos: https://www.jma.go.jp/bosai/map.html
  7. USGS, terremotos recentes: https://earthquake.usgs.gov/earthquakes/map/
  8. GOV.UK, princípios de design: https://www.gov.uk/guidance/government-design-principles
  9. ICMBio, Ibama e MMA, Cartilha sobre Incêndios Florestais e Manejo Integrado do Fogo (2025)
  10. Overpass, fonte de Delve Withrington, Dave Bailey e Thomas Jockin (SIL OFL): https://fonts.google.com/specimen/Overpass
  11. Gontijo et al., Detecção de queimadas e validação de focos de calor (INPE, 2011)